domingo, 24 de maio de 2026

A dor no dedo crônica

 Gente, sempre ando anotando ou memorizando palavras, frases e casos curiosos que ouço na praia, na rua e no Pilates.

Eu altero um pouco os nomes dos personagens e acrescento alguns detalhes em favor da linguagem literária.

Leiam essa crônica que tem um pouco de miniconto. 

Gosto de escrever com humor.

A dor no dedo

Minha colega do Pilates, Juciara Jucilene, é uma senhora simpática e adepta a simpatias para todo e qualquer problema de saúde que ela tem. Nos seus 75 anos de idade, já experimentou de tudo, desde envolver sua ampla cintura com barro e amarrar com madeira, como se fosse uma cerca, um espartilho de adobe para expelir lombrigas, até tomar canecas e mais canecas de chá de caça-marido, seja lá o que for. De qualquer forma, continua solteira e com a diabetes lá no topo.

Já há alguns dias, ela vem para a aula e a todo momento fica massageando um dos dedos da mão. Meio que na brincadeira, cada um de nós, a baiana, a catarinense e eu, caipira paulista, sugerimos remédios caseiros e simpatias. A baiana, cujo corpo faz lembrar as mulheres pintadas por Carybé lhe indicou um remédio certeiro.

— Escolha uma galinha grande, pequena não serve, uma galinha grande e enfie seu dedo dolorido lá dentro, por trás nela. Deixe um pouquinho e tire. A dor vai desaparecer na certa, afirmou ela.

Nós todos aproveitamos para zombar da baiana, perguntando se poderia ser outro animal, gato, cachorro ou até um coco verde ou melancia, que aqui abundam.

—Não, disse a baiana Genivalda sabida — só pode ser galinha, não importa a cor, branca, preta ou rajada, mas tem que ser galinha – galo, não, porque tem esporas, alertou.

Hoje, de volta à aula, após o feriado do Dia do Fisioterapeuta, flagrei a colega esfregando, massageando o dedo com um olhar assim, pensativo, imaginoso, entre um exercício de alongamento e outro. Não resisti e perguntei lá do meu aparelho:

—Pensando em que, Juciara Jucilene, na morte da bezerra?

E ela, meio  triste, meio chateada, me respondeu, de lá do aparelho dela:

— Não, estou pensando onde eu vou arranjar uma galinha. Só achei galinha congelada nos supermercados e até tentei em várias delas, mas o buraco é apertado e frio demais, ôxe, frio demais.

E eu fiquei ali pensando: “ essa gota está me matando; quando o dedão do pé inflama, incha e fica vermelho é uma dor do cão”. Pensei na simpatia da galinha, mas acho mesmo é procurar um médico.

 

 

Luiz Fernando

17 de outubro de 2023


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