domingo, 24 de maio de 2026

Janira e o caso do bebê da Bete - crônica - conto

 Gente, minha colega de Pilates, a Janira é cheia de histórias que ela conta séria mas acabamos, nós os alunos, rindo muito.

Vejam esse caso, que aconteceu com uma amiga minha mas que tem a participação da Jacira.


A Janira e o bebê da Bete

15 de dezembro de 2023

                Minha amiga Janira, vocês lembram, né? Faz aula de Pilates comigo. Já falei dela outras vezes. Bem, ela vive numa constante luta pelo emagrecimento. Já passada dos oitenta anos, continua vaidosa e cuidadosa. Compra tudo quanto é remédio, pomada, pasta, pílula e ervas medicinais milagrosas – e as usa! – Compra tudo pela internet. Em compensação, já que está tomando seus remédios e chás, se desmancha na comilança, com fé nos remédios. Pense numa mulher que acredita em cura rápida e milagrosa!

                Esses dias chegou na aula de Pilates com blusa mais larga recém-comprada, feliz pois tinha emagrecido 5 quilos em menos de uma semana! Como? — perguntei: Simplesmente tirei minha palmilha. Era ela que estava aumentando o meu peso. Eu mesmo fiquei pensando se ela andava era comendo a palmilha numa sopa ou com cuscuz. Mas foi maldade minha, claro.

                Falando em curandeiros de internet e milagreiros de antigamente, lembrei-me das minhas colegas de trabalho no escritório da uma fábrica em que trabalhei. Eram quatro ou cinco meninas, ali pelos seus vinte e poucos anos e uma delas, recém-casada, estava recém-grávida. Ela estava ansiosa para saber o sexo da criança e naquela época o exame ultrassom ainda não era muito acessível; o negócio era partir para uma vidente.

                Num final de uma tarde de trabalho, ela chegou para as colegas e para mim dizendo que não aguentava mais de ansiedade sobre o sexo do bebê. E o enxoval! — exclamava ela. Então, nos convidou a ir com ela de ônibus à Vossoroca, lá nas quebradas da vizinha cidade de Votorantim, onde lhe disseram que uma vidente, por uma bagatela, uns trocado, lhe satisfaria a curiosidade.

                E lá fomos nós. Descemos do ônibus já era noite, andamos por umas vielas de subida e descida, pulamos um corguinho e, enfim, batemos à porta da casinha de porta e janela, tipo Lua morta, Rua torta, Tua porta, do Cassiano Ricardo. Entramos todos e a vidente com avental de cozinha, chinelos de dedo e cabelo daquele jeito, abriu uma cortina e pediu para a amiga ansiosa entrar num cômodo atrás da cortina. Nós ficamos na sala, olhando os quadros do Sagrado Coração, da Virgem Santíssima, uma moringa d´agua num canto e uma TV preto e branco deligada no outro.

                Não deu nem tempo de a gente se sentar no estropiado sofá e já ouvimos nossa colega, por trás da cortina, agradecendo e meio que se despedindo da vidente. Ouvíamos suas risadinhas.

                Toca por não-sei-o-quê, uma das colegas que estavam ali com a gente na sala, deu dois passos rápidos e inesperados, botou a cabeça pra dentro da cortina e nós a ouvimos perguntar:

— Dona Jussara, eu nem sou casada ainda, mas também quero ter filhos um dia. A senhora consegue saber assim, por antecipação, qual será o sexo do meu bebê?

                Ouvimos, boquiabertos, a resposta da Dona Jussara:

— Quem disse que você não está grávida?

                Num tempo em que a virgindade antes do casamento era coisa sagrada, nós ouvimos aquilo e não rimos nem falamos nada. Discretamente, fomos saindo de fininho da casinha da mulher e ficamos esperando lá fora, sob a luz de um poste.

                A Bete, na saída, disse que a vidente previu que seria menina. Estava feliz da vida. Era o que ela queria: uma menina! Na verdade, passados seis ou sete meses, nasceu um belo menino rechonchudo e saudável.

                Nossa outra colega, pseudônimo Claudete, pra rimar, não demorou muito veio nos mostrar seu anel de noivado e o casamento foi meio que rápido também, sem alarde e sem festa. Pegou o escritório de surpresa.

                Em 50% de chance, a vidente errou. Mas a Jandira me saiu com essa, interrompendo uma série de exercícios de alongamento:

— É, Fernando, mas se fosse hoje em dia, ela poderia dizer que nascia menina ou menino, mas se ia ficar assim depois de grande, isso ela só diria se pagasse nova consulta!


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Janira e o caso do bebê da Bete - crônica - conto

 Gente, minha colega de Pilates, a Janira é cheia de histórias que ela conta séria mas acabamos, nós os alunos, rindo muito. Vejam esse caso...