quinta-feira, 19 de março de 2026

Fragilidade

 Caros leitores e leitoras. Escrevi esse poema em prosa num delírio, em um dia qualquer, em 1982.

            O pico da montanha era muito alto. Mas alguém conseguiu subir e pôs a mão à frente do sol. Fez-se enorme sombra. À noite, passou a mão pelo céu inteiro e colocou a lua e todas as estrelas dentro de um saco. Em noite de tempestade.

            O fundo do mar era escuro. E alguém colocou todas as estrelas do céu dentro do mar e a lua, colocou-a lá no horizonte, metade dentro, metade fora. Era noite de lua crescente.

            Ainda havia infinitos peixes. E alguém, ao romper da madrugada saiu e colocou todos os peixes do mar dentro de uma rede. Em dia de pescaria.

            Havia na terra muita gente. E alguém colocou, às sete da manhã e às seis da tarde, toda a gente dentro dos ônibus, dos carros e dos escritórios. Em dia de segunda-feira.

            Era domingo quente. O sol derretia a sombra. E toda gente pegou a bandeira e foi para o estádio. Era dia de decisão.

            Alguém também pegou toda a água do céu e jogou na terra. Em dia de chuva. E jogou todo o buraco do mundo dentro do abismo. Em dia de solidão. E toda distância do universo dentro do peito. Em dia de separação.

            E toda lágrima do mundo dentro do mar. Em dia de guerra. E toas as crianças no parque. Em dia de feriado.

            A beleza era muita, mas alguém a colocou todinha dentro da aurora. Em dia de acordar cedo. A fragilidade era imensa, mas alguém a colocou nas pétalas das flores. Era um dia de primavera. E o amor do mundo era tanto, que alguém o colocou nua cruz. Era dia da Paixão.

            E o silêncio do mundo era muito grande.  Mas alguém o colocou na boca do mudo. Em dia de piquenique.

            E a fragilidade da vida era tanta, que alguém a colocou dentro de um copo de cristal. Era dia de aniversário de criança.

 


           


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