Caros leitores e leitoras. Escrevi esse poema em prosa num delírio, em um dia qualquer, em 1982.
O pico da
montanha era muito alto. Mas alguém conseguiu subir e pôs a mão à frente do
sol. Fez-se enorme sombra. À noite, passou a mão pelo céu inteiro e colocou a
lua e todas as estrelas dentro de um saco. Em noite de tempestade.
O fundo do
mar era escuro. E alguém colocou todas as estrelas do céu dentro do mar e a
lua, colocou-a lá no horizonte, metade dentro, metade fora. Era noite de lua
crescente.
Ainda havia
infinitos peixes. E alguém, ao romper da madrugada saiu e colocou todos os
peixes do mar dentro de uma rede. Em dia de pescaria.
Havia na
terra muita gente. E alguém colocou, às sete da manhã e às seis da tarde, toda
a gente dentro dos ônibus, dos carros e dos escritórios. Em dia de
segunda-feira.
Era domingo
quente. O sol derretia a sombra. E toda gente pegou a bandeira e foi para o estádio.
Era dia de decisão.
Alguém
também pegou toda a água do céu e jogou na terra. Em dia de chuva. E jogou todo
o buraco do mundo dentro do abismo. Em dia de solidão. E toda distância do
universo dentro do peito. Em dia de separação.
E toda
lágrima do mundo dentro do mar. Em dia de guerra. E toas as crianças no parque.
Em dia de feriado.
A beleza
era muita, mas alguém a colocou todinha dentro da aurora. Em dia de acordar
cedo. A fragilidade era imensa, mas alguém a colocou nas pétalas das flores.
Era um dia de primavera. E o amor do mundo era tanto, que alguém o colocou nua
cruz. Era dia da Paixão.
E o
silêncio do mundo era muito grande. Mas
alguém o colocou na boca do mudo. Em dia de piquenique.
E a
fragilidade da vida era tanta, que alguém a colocou dentro de um copo de
cristal. Era dia de aniversário de criança.
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