quinta-feira, 19 de março de 2026

Horizonte perdido - reflexões sobre o horizonte

 Li o belíssimo livro Horizonte Perdido, de James Hilton, publicado em 1933, com tradução de Francisco Machado Vila e Leonel Vallandro. Publicado pela Ed. Círculo do Livro e escrevi algumas reflexões que gostaria de compartilhar com vocês.

Obs. Os excertos aqui citados são do Capítulo oito; pág. 163-175.

Como se perde o horizonte? Como se perde no horizonte? Até que são boas perguntas, um tanto retóricas, um tanto poéticas talvez, mas gostaria de pensar sobre como e porque deixamos escorregar pelos vãos dos dedos o horizonte que já estava à mão.

                Transcrevo, abaixo, alguns trechos de um diálogo entre os personagens do livro Horizonte perdido, de James Hilton. O lama superior, como é identificado no romance, o monge que comanda a cidade da eterna juventude, Shangri-la, situada nas montanhas do Tibete conversa com Conway, um embaixador inglês que fugia da chegada da guerra num avião, juntamente com outros refugiados e que, não acidentalmente, cai nas montanhas do Himalaia. Todos são resgatados e levados a Shangri-la. Creio que por hora, essas informações são o suficiente para que você entenda a linha do horizonte.

                O grande lama diz a Conway: “segundo os padrões do mundo, o senhor ainda é moço. Tem, como se costuma dizer, a vida diante de si. De acordo com o curso normal das coisas, poderá esperar uns vinte ou trinta anos de atividade, que irá decrescendo imperceptível e gradualmente. Não é em absoluto uma perspectiva desalentadora, e não posso esperar que a olhe como eu a olho: como um entreato brevíssimo e por demais agitado. Viveu, sem dúvida, o primeiro quartel de sua existência sob uma nuvem de excessiva juventude, enquanto os últimos vinte e cinco anos serão provavelmente obscurecidos pela nuvem ainda mais escura da demasiada velhice; e entre essas duas nuvens, como são  fracos e escassos os raios de sol que iluminam uma vida Shangri-la, mal começaram ainda os seus anos de sol.(...) Tempo virá em que (se aceitar ficar em Shangri-la) comece a envelhecer como os outros, embora com muito mais lentidão e em condições infinitamente mais nobres. Aos oitenta anos poderá ainda subir o desfiladeiro com a agilidade de um moço, mas quando contar o dobro dessa idade não deve esperar que o mesmo vigor ainda persista. Não fazemos milagres, não vencemos a morte e nem sequer a decadência. Tudo o que podemos fazer e temos feito algumas vezes é retardar a marcha desses breves momentos que constituem a vida. Logramos isso mediante métodos tão simples aqui quanto impossíveis em outros lugares. Mas não se iluda, o mesmo fim aguarda a nós todos.

                “Ainda assim é uma perspectiva sedutora a que lhe ofereço: longos dias tranquilos, durante os quais contemplará o pôr do sol como um homem de outra parte do mundo ouve um relógio dar as horas, mas com muito menos ansiedade. Virão e ir-se-ão os anos, o senhor passará dos prazeres materiais a outros mais austeros, porém não menos satisfatórios. Poderá perder o gume do apetite e a rijeza dos músculos, mas desfrutará vantagens que compensarão a perda. Adquirirá calma e profundeza, madureza, sabedoria e cristalino encanto da memória.

(Agora vem um dos trechos que mais me impressionam, observem):  E, mais precioso que tudo, terá o tempo, esse dom tão raro, tão desejado, que os países ocidentais foram perdendo à medida que o buscavam com ardor. Reflita um instante. Terá tempo para ler, nunca mais precisará saltar páginas a fim de poupar minutos, nem deixar de lado nenhum estudo porque seja demasiado longo. (grifo meu) Também tem gosto pela música: aí, pois, estão os seus instrumentos, as suas composições e sobretudo o tempo, sem medida e sem pressa, para extrair deles o máximo de encanto. E, além disso, diremos, um homem de boa companhia: não se extasia ao pensar que poderá fazer sábias e serenas amizades, e gozar um longo e profundo comércio espiritual, sem temos de que a morte o venha chamar com sua costumeira pressa? Ou se prefere a solidão, não poderia utilizar um dos nossos pavilhões para enriquecer a doçura das meditações solitárias?”

 

“... mas talvez esteja pensando na esposa, nos pais e nos filhos que porventura tenha deixado no mundo. Ou terá ambições que pensa ver realizadas?  Creia-me, se bem que a princípio a separação possa ser dolorosa, dentro de dez anos nem a sombra disso tudo existirá para o senhor. Digo isto embora o senhor – se é que leio certo no seu espírito –  não tenha semelhantes preocupações.

E, mais adiante, a conversa entre o lama superior e Conway, abordando um tópico que a mim particularmente também sempre incomodou. Vejam:  “ A preguiça na realização de certas coisas pode ser uma virtude – sentenciou o murmúrio. –  Em todo caso, nós é que não nos mostraremos exigentes nesse particular. Creio que Tchang (outro monge do templo) já lhe explicou o nosso princípio de moderação (grifo meu), e uma das coisas em que sempre somos moderados é a atividade. (!!!!). Eu, por mim, aprendi dez idiomas, mas estes poderiam ter sido vinte se houvesse estudado imoderadamente. Não o fiz, contudo. Verá que não somos gozadores nem tampouco ascetas. Enquanto não alcançamos uma idade em que se impõe a prudência, aceitamos de bom grado os prazeres da mesa, ao passo que, para ventura dos nossos companheiros mais jovens, as mulheres do vale aplicam o princípio de moderação à sua própria castidade. Tudo bem pensando, tenho certeza de que se adaptará aos nossos costumes sem muito esforço.”

O lama superior ofereceu a Conway esse horizonte que como vimos se parece muito com o fim das ambições e da pressa, da ansiedade e das lutas (era um período de guerra) e da destruição previstas pelo lama superior : a chegada de um tempo em que os homens, embriagados com sua técnica homicida, assolariam o mundo com tal furor, que toda coisa preciosa estaria em perigo, todos os livros, quadros e composições musicais, todo o tesouro acumulado durante dois mil anos, o pequeno, o delicado, o indefeso – tudo poderia se perderia como perdidos foram os livros de Tito Lívio, ou seria destruído como os ingleses destruíram o Palácio de Verão em Pequim”.

Mas, Conway, seduzido pelo canto da sereia, no livro, uma mentira de seu irmão e uma ilusão de que era importante, talvez mesmo imprescindível para o mundo e para as pessoas e que, portanto, precisava voltar e voltou. Poderia ter ficado para sempre, ou na expressão que o monge preferiu usar: “for good”. E arrependeu-se.

Penso nesse livro sempre e temo por já alcançado meu horizonte e por estar perdendo-o com minhas decisões.

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