Li o belíssimo livro Horizonte Perdido, de James Hilton, publicado em 1933, com tradução de Francisco Machado Vila e Leonel Vallandro. Publicado pela Ed. Círculo do Livro e escrevi algumas reflexões que gostaria de compartilhar com vocês.
Obs. Os excertos aqui citados são do Capítulo oito; pág. 163-175.
Como se perde o
horizonte? Como se perde no horizonte? Até que são boas perguntas, um tanto
retóricas, um tanto poéticas talvez, mas gostaria de pensar sobre como e porque
deixamos escorregar pelos vãos dos dedos o horizonte que já estava à mão.
Transcrevo, abaixo, alguns
trechos de um diálogo entre os personagens do livro Horizonte perdido, de James
Hilton. O lama superior, como é identificado no romance, o monge que comanda a
cidade da eterna juventude, Shangri-la, situada nas montanhas do Tibete
conversa com Conway, um embaixador inglês que fugia da chegada da guerra num
avião, juntamente com outros refugiados e que, não acidentalmente, cai nas
montanhas do Himalaia. Todos são resgatados e levados a Shangri-la. Creio que
por hora, essas informações são o suficiente para que você entenda a linha do
horizonte.
O grande lama diz a Conway: “segundo
os padrões do mundo, o senhor ainda é moço. Tem, como se costuma dizer, a vida
diante de si. De acordo com o curso normal das coisas, poderá esperar uns vinte
ou trinta anos de atividade, que irá decrescendo imperceptível e gradualmente.
Não é em absoluto uma perspectiva desalentadora, e não posso esperar que a olhe
como eu a olho: como um entreato brevíssimo e por demais agitado. Viveu, sem
dúvida, o primeiro quartel de sua existência sob uma nuvem de excessiva
juventude, enquanto os últimos vinte e cinco anos serão provavelmente
obscurecidos pela nuvem ainda mais escura da demasiada velhice; e entre essas
duas nuvens, como são fracos e escassos
os raios de sol que iluminam uma vida Shangri-la, mal começaram ainda os seus
anos de sol.(...) Tempo virá em que (se aceitar ficar em Shangri-la) comece a
envelhecer como os outros, embora com muito mais lentidão e em condições
infinitamente mais nobres. Aos oitenta anos poderá ainda subir o desfiladeiro
com a agilidade de um moço, mas quando contar o dobro dessa idade não deve
esperar que o mesmo vigor ainda persista. Não fazemos milagres, não vencemos a
morte e nem sequer a decadência. Tudo o que podemos fazer e temos feito algumas
vezes é retardar a marcha desses breves momentos que constituem a vida.
Logramos isso mediante métodos tão simples aqui quanto impossíveis em outros
lugares. Mas não se iluda, o mesmo fim aguarda a nós todos.
“Ainda assim é uma perspectiva
sedutora a que lhe ofereço: longos dias tranquilos, durante os quais
contemplará o pôr do sol como um homem de outra parte do mundo ouve um relógio
dar as horas, mas com muito menos ansiedade. Virão e ir-se-ão os anos, o senhor
passará dos prazeres materiais a outros mais austeros, porém não menos
satisfatórios. Poderá perder o gume do apetite e a rijeza dos músculos, mas
desfrutará vantagens que compensarão a perda. Adquirirá calma e profundeza,
madureza, sabedoria e cristalino encanto da memória.
(Agora vem um dos trechos que mais me impressionam, observem): E, mais precioso que tudo, terá o tempo, esse
dom tão raro, tão desejado, que os países ocidentais foram perdendo à medida
que o buscavam com ardor. Reflita um instante. Terá tempo para ler, nunca
mais precisará saltar páginas a fim de poupar minutos, nem deixar de lado
nenhum estudo porque seja demasiado longo. (grifo meu) Também tem gosto
pela música: aí, pois, estão os seus instrumentos, as suas composições e
sobretudo o tempo, sem medida e sem pressa, para extrair deles o máximo de
encanto. E, além disso, diremos, um homem de boa companhia: não se extasia ao
pensar que poderá fazer sábias e serenas amizades, e gozar um longo e profundo
comércio espiritual, sem temos de que a morte o venha chamar com sua costumeira
pressa? Ou se prefere a solidão, não poderia utilizar um dos nossos pavilhões
para enriquecer a doçura das meditações solitárias?”
“... mas talvez esteja pensando na esposa, nos pais e nos filhos que
porventura tenha deixado no mundo. Ou terá ambições que pensa ver
realizadas? Creia-me, se bem que a
princípio a separação possa ser dolorosa, dentro de dez anos nem a sombra disso
tudo existirá para o senhor. Digo isto embora o senhor – se é que leio certo no
seu espírito – não tenha semelhantes
preocupações.
E, mais adiante, a conversa entre o lama superior e Conway, abordando um
tópico que a mim particularmente também sempre incomodou. Vejam: “ A preguiça na realização de certas coisas
pode ser uma virtude – sentenciou o murmúrio. –
Em todo caso, nós é que não nos mostraremos exigentes nesse particular.
Creio que Tchang (outro monge do templo) já lhe explicou o nosso princípio
de moderação (grifo meu), e uma das coisas em que sempre somos moderados é
a atividade. (!!!!). Eu, por mim, aprendi dez idiomas, mas estes poderiam ter
sido vinte se houvesse estudado imoderadamente. Não o fiz, contudo. Verá que
não somos gozadores nem tampouco ascetas. Enquanto não alcançamos uma idade em
que se impõe a prudência, aceitamos de bom grado os prazeres da mesa, ao passo
que, para ventura dos nossos companheiros mais jovens, as mulheres do vale
aplicam o princípio de moderação à sua própria castidade. Tudo bem pensando,
tenho certeza de que se adaptará aos nossos costumes sem muito esforço.”
O lama superior ofereceu a Conway esse horizonte que como vimos se parece
muito com o fim das ambições e da pressa, da ansiedade e das lutas (era um
período de guerra) e da destruição previstas pelo lama superior : a chegada de
um tempo em que os homens, embriagados com sua técnica homicida, assolariam o
mundo com tal furor, que toda coisa preciosa estaria em perigo, todos os livros,
quadros e composições musicais, todo o tesouro acumulado durante dois mil anos,
o pequeno, o delicado, o indefeso – tudo poderia se perderia como perdidos
foram os livros de Tito Lívio, ou seria destruído como os ingleses destruíram o
Palácio de Verão em Pequim”.
Mas, Conway, seduzido pelo canto da sereia, no livro, uma mentira de seu
irmão e uma ilusão de que era importante, talvez mesmo imprescindível para o
mundo e para as pessoas e que, portanto, precisava voltar e voltou. Poderia ter
ficado para sempre, ou na expressão que o monge preferiu usar: “for good”. E
arrependeu-se.
Penso nesse livro sempre e temo por já alcançado meu horizonte e por
estar perdendo-o com minhas decisões.
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